segunda-feira, 25 de julho de 2016

Uma molécula para combater quatro vírus ao mesmo tempo

 Estudo descobre alvo para inibir vírus da Aids, da hepatite C, da dengue e da Febre do Nilo Ocidental


A ideia de que uma única pílula possa combater várias doenças infecciosas ao mesmo tempo começa a tomar forma. Ainda falta muito para que um medicamento desse tipo chegue às farmácias, mas, nos laboratórios, começa a ser desenvolvida a semente do que poderia ser uma nova família de drogas panvirais. A pedra angular desse projeto acaba de ser colocada por um grupo de pesquisadores do Instituto de Pesquisa da Aids (IrsiCaixa) e da Universidade Pompeu Fabra (UPF), de Barcelona, que criaram uma molécula capaz de combater, simultaneamente, o vírus da Aids, da hepatite C, da dengue e da Febre do Nilo Ocidental.
Os pesquisadores conseguiram modelar um elemento da célula que hospeda o vírus para inibir uma proteína que ajuda o organismo a se replicar. Especificamente, a molécula foi concebida para neutralizar a proteína DDX3, cuja presença era necessária para replicar os vírus que causam a Aids (HIV) e a hepatite C (HCV). "Tínhamos identificado o alvo molecular deste composto, e químicos especializados foram responsáveis por modelá-lo para infiltrar essa estrutura química dentro da proteína", diz José Esté, chefe do grupo de Patogênese do HIV do IrsiCaixa.
Os resultados dos ensaios em culturas celulares da molécula demonstraram sua eficácia para inibir o vírus da hepatite C e alguns tipos de HIV resistentes aos antivirais comuns. Além disso, quando os pesquisadores viram a potência dessas moléculas contra o HCV, decidiram dar um passo adiante e procurar outros vírus cujos mecanismos de reprodução fossem semelhantes aos do causador da hepatite C. Os cientistas fizeram o teste com o vírus da dengue e o da Febre do Nilo Ocidental, que compartilham a estratégia de replicação e genoma com o HCV, e descobriram que a molécula também funcionava contra eles.
Embora ainda haja um longo caminho a percorrer no laboratório e a eficácia do medicamento tenha de ser confirmada em outros estudos in vitro e em modelos animais, os pesquisadores dizem que esta descoberta é a porta de entrada "para desenvolver uma nova família de drogas panvirais, com capacidade para inibir vários vírus ao mesmo tempo". O estudo foi publicado na revista PNAS. "Esta molécula será de grande utilidade porque os pacientes imunodeprimidos, por exemplo, sofrem muitas doenças", destaca Esté, que não descarta que esta molécula também possa ser eficaz contra outros vírus, como o zika ou o chikungunya. "Muitas dessas infecções ocorrem onde já existem outras doenças endêmicas, que, embora não representem um perigo, tampouco atraem as farmacêuticas para pesquisá-las, e não há tratamento", acrescenta o pesquisador.Além deste projeto abrir a porta para simplificar o tratamento de pessoas infectadas com os diversos vírus e também buscar alternativas de tratamento para doenças que não tinham cura (não há nenhuma droga aprovada contra o vírus do Nilo Ocidental ou contra a dengue), os pesquisadores destacaram que a molécula age contra uma parte da célula, e não contra o vírus, dificultando que este desenvolva resistência contra o fármaco. "Um vírus é um parasita intracelular, precisa de alguns elementos da célula para funcionar. A maioria dos tratamentos ataca os vírus diretamente, e estes, por sua vez, desenvolvem estratégias para se esquivar dos ataques. No entanto, o que estamos fazendo é inibir um desses elementos da célula que são necessários ao vírus, e é mais difícil que se proteja e se torne resistente contra isso", disse Esté.
No entanto, Esté recomenda paciência e prudência. "Encontramos o alvo, o primeiro composto", diz, mas o caminho a percorrer para que uma droga panviral chegue ao mercado ainda é muito longo. O importante, afirma, é que "o interesse no desenvolvimento de panvirais é alto", e isso é "promissor" para a pesquisa.
Disponível em <http://brasil.elpais.com/brasil/2016/04/25/ciencia/1461605176_424531.html>

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Bactéria encontrada no solo da Amazônia desperta interesse farmacêutico

O que é a pesquisa?

Bactérias pertencentes ao grupo das actinobactérias têm despertado grande interesse científico por serem capazes de produzir substâncias terapêuticas, tais como antibióticos, antiparasitários, antitumorais, anti-inflamatórios, antivirais. Essas bactérias também produzem enzimas como amilase e celulase, que têm  aplicação nas indústrias alimentícias e têxtil. Mais de sete mil substâncias naturais são produzidas pelas actinobactérias, principalmente as do gênero Streptomyces, responsáveis pela matéria-prima de mais de 70% dos antibióticos comercializados.

A região Amazônica é um ambiente propício a proliferação das actinobactérias, pois a diversidade de vegetação, solos e características climáticas, resultam em uma ampla diversidade desses micro-organismos e das substâncias produzidas por eles. Com objetivo de avaliar o potencial biotecnológico das actinobactérias, a pesquisadora Katrine Escher, do Laboratório de Microbiologia, do Instituto de Saúde Coletiva (ISCO), da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), busca isolar e identificar bactérias encontradas no solo da Amazônia, produtoras de substâncias de  interesse farmacêutico.

Como é feita a pesquisa?

A macacaporanga é uma planta nativa da Amazônia, conhecida pelo seu aroma e propriedades medicinais como antibacteriano. Foram encontradas na raiz dessa planta três actinobactérias, as quais foram cultivadas em laboratório – com condições favoráveis ao seu crescimento – identificadas e classificadas de acordo com seu potencial de produzir substâncias de interesse industrial. Foram utilizadas várias metodologias para avaliar o potencial farmacológico dessas substâncias, como a ação sobre fungos e bactérias causadores de doenças em humanos, animais e plantas, e sua aplicação nos setores agronômico (como fertilizantes) e ambiental (por exemplo, na despoluição de ambientes contaminados por óleo).

As bactérias produtoras de substâncias bioativas foram identificadas por métodos bioquímicos amplamente usados na microbiologia e submetidas à produção destas substâncias de interesse por meio de processos de fermentação em meio líquido  em condições controladas de temperatura e acidez.  O produto resultante da fermentação passa por um processo de purificação que utiliza solventes orgânicos, obtendo-se, assim, as substâncias bioativas, as quais são identificadas, posteriormete,  pela sua estrutura molecular.

Qual a importância da pesquisa?

As actinobactérias estudadas apresentaram ação contra fungos e bactérias de interesse clínico e ambiental, inclusive contra a Candida albicans e Staphylococcus aureus, micro-organismos frequentemente associados a casos de infecção hospitalar. Elas também se mostraram ativas contra patógenos de plantas de interesse agronômico (Fusarium sp. e Rhizoctonia solani) e de interesse florestal, como os fungos  (Postia placenta e  Polyporus sanguineus) que apodrecem a madeira.

Dentre as substâncias biotivas produzidas, uma das mais promissoras é a L-glutaminase, que apresenta ação antitumoral no tratamento de doenças graves como a leucemia linfóide aguda (LLA). Outras substâncias produzidas por essas actinobactérias são amplamente utilizadas pela indústria alimentícia, como as amilases, que atuam na hidrólise do amido, as pectinases, utilizadas na produção de vinhos e sucos, e as lipases, que atuam na degradação de óleos e gorduras, tendo aplicação na fabricação de detergentes biodegradáveis e na remediação de solos poluídos com óleos.
Publicado em 12 de maio de 2016.

quinta-feira, 30 de junho de 2016

"O Engenheiro de Bioprocessos e suas diferentes possibilidades de atuação" - Entrevista com Willer Ferreira, Líder de Bioprocessos na empresa Libbs.

O CAEB, com suporte e apoio de colaboradores - a ex-aluna Lorena de Oliveira Felipe e o Prof. Igor Boggione - lança o Projeto "O Engenheiro de Bioprocessos e suas diferentes possibilidades de atuação". O principal objetivo dessa iniciativa consiste em estimular os estudantes da Engenharia de Bioprocessos sobre as inúmeras possibilidades de atuação profissional, além de promover o estreitamento das empresas com os alunos para futuros estágios e/ou parcerias. Para tal, entrevistas mensais com Engenheiros formados no curso da UFSJ/CAP serão divulgadas no Blog e na Rede Social do CAEB, com o intuito de mostrar a alocação desses profissionais nas mais diversas áreas. Em última instância, o lançamento desse projeto também pretende fortalecer o nome da UFSJ enquanto formadora de bons profissionais para o mercado de trabalho.
Na estreia do Projeto, começamos nossa série de entrevistas com o Engenheiro de Bioprocessos recém-formado no CAP -  Willer Ferreira da Silva Júnior, 23 anos – que, atualmente, ocupa o cargo de Líder de Bioprocessos na empresa Libbs. A Libbs, por sua vez, destaca-se como uma das mais importantes indústrias farmacêuticas do Brasil, com sede administrativa no estado de São Paulo e uma produção anual estimada em mais de 50 milhões de unidades de medicamentos. Além disso, a Libbs conta com mais de 2500 colaboradores, investe 10% do seu faturamento em P&D, perfazendo mais de meio século de atuação industrial nacional.
Confira então abaixo essa primeira entrevista, afirmamos que vai valer a pena!

Figura 1 - Willer Ferreira da Silva Junior: Engenheiro de Bioprocessos recém-formado na UFSJ/CAP e que atualmente, ocupa o cargo de Líder de Bioprocessos na Libbs (uma grande indústria farmacêutica).

QUESTIONÁRIO DE ENTREVISTA: PROJETO "O Engenheiro de Bioprocessos e suas diferentes possibilidades de atuação"



Dados pessoais 

1.               Nome completo: Willer Ferreira da Silva Junior
2.               Idade: 23
3.               Ano de conclusão do curso: 2015/2
4.               Empresa que trabalha/Universidade de Pós-Graduação: Libbs Farmacêutica



Graduação: Engenharia de Bioprocessos

1.               Por que escolheu o curso de Engenharia de Bioprocessos?
Devido a sua interdisciplinaridade. Não sabia ao certo as atribuições e áreas de atuação do Engenheiro de Bioprocessos, mas quando olhei a grade curricular do curso, fiquei apaixonado, pois havia disciplinas de química, física, matemática e biologia (tudo o que eu mais gostava no ensino médio).

2.               O que motivou a sua escolha pela UFSJ/CAP?
Na verdade, o CAP me escolheu (e eu o escolhi, no final das contas). Em 2009 a minha meta era começar um curso de graduação em uma universidade pública, independentemente de onde fosse. Fui aprovado em outra universidade federal, mas o curso de Engenharia de Bioprocessos me interessou mais.

3.               Participou de atividades extracurriculares durante a graduação? Caso sim, o que fomentou essa sua pró-atividade em buscar uma experiência além da sala de aula?
Sim. Minha motivação foi aprender ainda mais e ver a aplicação do que estudava nas disciplinas, além do interesse em enriquecer meu currículo para quando fosse para o mercado de trabalho. E tudo isso realmente se concretizou; oportunidades surgiram graças aos trabalhos que desenvolvi com meus padrinhos José Carlos, Daniela Fabrino, Bruna Mara e Edson Nucci.
Iniciei minha primeira iniciação científica com o Prof. José Carlos, com o qual trabalhei por 3 anos. O trabalho que começamos singelamente a desenvolver em 2010, cresceu, recebeu prêmio de destaque de IC na Escola de Verão em Farmacognosia e deu origem a outros projetos financiados pela FAPEMIG, além de artigos em congressos e revistas científicas.
Enquanto aluno de IC do meu amigo e “pai” José Carlos, ingressei no PET DPCFC, cuja tutora é a Dani, como bolsista do MEC. Aprendi muito durante esse período e abri minha mente sobre a importância da interdisciplinaridade e minha responsabilidade para com a sociedade, além da força do trabalho em equipe e a importância do alinhamento dos valores dos “colaboradores” para se atingir as metas da instituição (PET, empresa, ONG, etc).
Mais tarde, senti a necessidade de adquirir experiência em outras áreas e aprender ferramentas para simulação, modelagem e otimização de processos (minha paixão na engenharia); então comecei a trabalhar com a Bruna Mara em um projeto de otimização da purificação de IgY (hoje trabalho no setor de purificação de anticorpos monoclonais) com bolsa da FAPEMIG. Com intuitos similares, desenvolvi meu TCC sob a orientação do prof. Edson Nucci nas áreas de projeto e cinética de reatores, modelagem e simulação de processos. Essa experiência me proporcionou a oportunidade de aplicar e integralizar as disciplinas que cursei na UFSJ/CAP.
Também tive o prazer de fazer parte da Empresa Júnior do curso – a ATP Jr. -, o que me deu uma ideia mais clara sobre o ambiente que encontramos nas empresas, além de ter desenvolvido minha capacidade de lidar com profissionais e conflitos, liderar pessoas e projetos no ambiente corporativo.

4.               Quais as principais características de desenvolvimento – tanto pessoais quanto profissionais - você considera fundamental para um aluno de graduação?
Primeiramente o amadurecimento quanto pessoa, que se preocupa com os outros e com o meio ambiente e está ciente dos impactos das suas ações na esfera global. Além disso, a autonomia, a proatividade e a (auto)reflexão são importantes tanto pessoal, quanto profissionalmente. A autonomia nos estudos, a iniciativa em construir uma universidade melhor, executando projetos (às vezes independentes) e a ponderação sobre a conectividade e a aplicação do que é estudado, desenvolvem nos alunos habilidades úteis no mercado de trabalho.



Formei: e agora?


1.               Qual o caminho que você trilhou após a conclusão da graduação? O que te levou a isso?
Fui para a produção, na indústria. Me apaixonei pelas disciplinas de engenharia no final do curso e sabia que queria seguir a área de engenharia de processos trabalhando com simulação, controle e otimização de processos; queria de alguma forma vivenciar as operações unitárias e a dinâmica da produção. Além disso, certa frustração com a distância entre o meio acadêmico e o mercado profissional me fizeram decidir por não ir para a pós-graduação imediatamente; dessa forma poderia adquirir experiência na indústria para compartilhar com futuros alunos (caso decida ser professor no futuro).

2.               Atualmente, qual a posição que você ocupa?
Líder de Bioprocessos na empresa farmacêutica Libbs.

3.               Como foi a forma de ingresso na empresa/instituição que você está agora?
Vi o anúncio da vaga no LinkedIn e me candidatei no site da empresa. Fui chamado para uma entrevista e posteriormente recebi a confirmação da aprovação.

4.               As matérias teóricas vistas em sala de aula, tanto do ciclo profissional quanto do ciclo básico já foram demandadas por você na sua atuação prática hoje no mercado de trabalho?
Sim, tanto no meu estágio quanto no meu atual trabalho. Embora geralmente tenhamos alguns “tutores” no trabalho, ter uma base sólida de conhecimento na área ajuda o profissional a entender os processos de forma rápida e propor soluções/alternativas para os mesmos.
Durante meu estágio, utilizei conceitos de microbiologia (geral e industrial), cinética e cálculo de reatores, mecânica dos fluidos, cálculo(s), bioquímica, análise instrumental,  separação e purificação de produtos biotecnológicos, instrumentação e controle de bioprocessos, biologia molecular. Creio que enquanto Líder de Bioprocessos, usarei conceitos de todas as disciplinas.
Quando você é treinado sobre as medidas de prevenção de impacto ambiental, segurança do trabalho e projetos sociais da empresa, ou mesmo quando interage com seus colegas de trabalho (com diferentes experiências e histórias de vida), é impossível não relembrar de algumas discussões das disciplinas Ciência, Tecnologia e Sociedade; Meio Ambiente e Gestão para a Sustentabilidade (Matriz Aspecto e Impacto Ambiental, por exemplo); Indivíduos, Grupos e Sociedade Global, por exemplo.
Ainda, como trabalho com downstream (nesse caso, na purificação de anticorpos monoclonais), conceitos de separação e purificação de produtos biotecnológicos; operações unitárias; química analítica; análise instrumental; bioquímica básica; cálculos; estatística; estequiometria industrial; transferência de massa; materiais para a indústria de Bioprocessos; instalações industriais; instrumentação/controle de bioprocessos e eletrotécnica são frequentemente (ou eventualmente) algumas disciplinas requisitadas atualmente pela posição que ocupo no mercado de trabalho e que foram vistas em sala de aula ainda durante a minha graduação.


5.               Para chegar na posição que você ocupa atualmente, quais as atitudes que você tomou enquanto estudante e que considera essencial para ter chegado até aqui? Ter buscado conhecimento além do que é proposto na grade curricular do curso, ter me engajado em projetos na universidade, não ter desistido de aprender outros idiomas, ter sido fiel aos meus objetivos profissionais, ter buscado conhecer melhor a realidade da indústria (softwares, metodologias e processos utilizados nas empresas).


6.               Quais conselhos você dá para os alunos do curso e para os demais graduandos em geral?

Estejam abertos a oportunidades e reflitam sobre o que lêem e aprendem, entendendo o funcionamento dos princípios científicos (decoreba não). Participem de atividades distintas; cada uma delas lhes trará uma experiência e habilidade diferente que poderão ser diferencial na busca por um emprego. Reflita sobre suas aptidões e preferências definindo seus objetivos profissionais baseados na sua satisfação pessoal; se não for possível atingir seus objetivos profissionais agora, sejam pacientes e busquem meios alternativos para alcançá-los ou experimentem temporariamente outras opções, se preparando mais para os seus objetivos. Por último mas não menos importante: estudem inglês e outros idiomas; eles abrem portas (para o meio acadêmico, mercado de trabalho, para a vida).

terça-feira, 17 de maio de 2016

Estudo brasileiro na Science comprova capacidade do zika vírus de matar células neuronais humanas


11 Abril 2016 | 08:35

Já o vírus da dengue não tem a mesma capacidade, segundo pesquisa realizada com “minicérebros” no Rio de Janeiro. Estudo soma-se a uma série de contribuições importantes da ciência nacional para a compreensão da epidemia de zika e das má-formações congênitas associadas a ela.


Imagem de microscopia mostra partículas de zika vírus (as bolinhas laranjas) ao redor de uma neuroesfera de células humanas. Crédito: Rodrigo Madeiro/IDOR
Imagem de microscopia mostra partículas de zika vírus (as bolinhas laranjas) ao redor de uma neuroesfera de células humanas. Crédito: Rodrigo Madeiro/IDOR
Não é comum ver o nome de cientistas ou instituições brasileiras em destaque nas revistas de maior impacto científico do mundo, como Science e Nature. Na maioria dos casos, eles aparecem como coadjuvantes de algum trabalho multicêntrico internacional — o que não é nenhum desmérito; pelo contrário, visto que essas colaborações são absolutamente essenciais para a evolução da ciência nacional.
Mais raro é ver algum trabalho nessas revistas em que o autor principal é um brasileiro. E mais raro ainda é encontrar um trabalho feito 100% no Brasil — como este, que acaba de ser publicado online pela Science, 100% “made in Brazil”, por pesquisadores da UFRJ e do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR): Zika virus impairs growth in human neurospheres and brain organoids. Aliás, menos de um mês depois de outro trabalho importante, também liderado por brasileiros, ter sido publicado na mesma revista, com uma análise comparativa de sete genomas de zika vírus: Zika virus in the Americas: Early epidemiological and genetic findings; liderado por pesquisadores do Instituto Evandro Chagas, no Pará.
Os resultados preliminares da pesquisa carioca já haviam sido divulgados cerca de um mês atrás, na plataforma Peer J, comprovando que o vírus da zika tem a capacidade de infectar e matar células neuronais in vitro (leia a reportagem aqui: http://goo.gl/5cKvSN). Agora, na Science, o trabalho traz um complemento importante, mostrando que o mesmo não ocorre com o vírus da dengue, apesar de ele ser extremamente semelhante ao da zika. Ou seja: os pesquisadores repetiram os experimentos com o vírus da dengue, mas só as células infectadas pelo zika tiveram sua morfologia alterada ou morreram. Mais um indício de que há,  realmente, algo diferente no vírus da zika que o torna especialmente perigoso para o desenvolvimento do sistema nervoso central — podendo levar à microcefalia e outras má-formações congênitas em bebês, além da síndrome de Guillain-Barré e outras complicações em adultos.
O estudo foi realizado com os chamados “minicérebros”, que são esferas de células-tronco neuronais obtidas a partir de uma técnica chamada iPS, em que células adultas são induzidas a se transformar em células-tronco pluripotentes in vitro, mimetizando a estrutura de um cérebro humano embrionário.

Resposta à altura

O autor principal é o neurocientista Stevens Rehen (que apesar do nome, é 100% brasileiro). Segundo a Academia Brasileira de Ciências, onde será realizada uma entrevista coletiva sobre a pesquisa hoje, dentre os 170 mil artigos já publicados pela revista Science em 136 anos de existência, apenas 84 tinham autores ligados a instituições brasileiras, e apenas 36 destes foram feitos por cientistas baseados exclusivamente no Brasil.
Outros grupos brasileiros também emplacaram artigos importantes sobre o zika e a microcefalia recentemente na revista The Lancet, uma das mais respeitadas da literatura científica mundial na área médica. Além de vários outros trabalhos publicados desde o início da epidemia, em diversas revistas, abordando diferentes aspectos do vírus e da doença. Todas essas publicações podem ser encontradas na Biblioteca Digital Zika, organizada pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Palmas para a ciência brasileira, que, apesar de todas as dificuldades, vem produzindo resultados de qualidade e respondendo com competência a uma das maiores emergências de saúde pública que esse país já vivenciou. 

Disponível em<http://ciencia.estadao.com.br/blogs/herton-escobar/estudo-brasileiro-na-science-comprova-capacidade-do-zika-virus-de-matar-celulas-neuronais-humanas/> 

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Adeus, lítio? Baterias feitas de bactérias podem ser o futuro

Uma tecnologia atualmente em desenvolvimento por pesquisadores da Holanda pode, no futuro, trocar as baterias voláteis, perigosas e extremamente caras por opções de baixo custo, mais seguras e ainda amigáveis ao meio-ambiente. A solução encontrada por eles é das mais inusitadas: trocar o lítio por bactérias que ajudam no armazenamento de energia.
As “baterias bioeletroquímicas”, como são chamadas, são compostas por duas partes extremamente importantes. De um lado, um módulo de Síntese Elétrica Microbial (MES) absorve elétrons e, com eles, gera acetato – um sal metálico capaz de armazenar eletricidade. Do outro, uma célula de combustível microbial processa o acetato com a ajuda de processos de redução e oxidação, o que libera a energia novamente para ser usada.
Todo esse processo, é claro, pode ser repetido várias vezes, permitindo o armazenamento e a liberação de cargas de energia como em uma bateria comum.
Perfeito para a energia solar
Muitos, a esse ponto, devem estar se perguntando se uma tecnologia dessas realmente funciona. Os testes feitos pela equipe, até o momento, trouxeram resultados promissores: após ser alimentada por energia durante um período de 16 horas, a bateria gerou energia por um total de 8 horas.
Eu sei, pode não parecer uma eficiência das maiores para, por exemplo, nossos celulares, mas isso se encaixa com perfeição nas expectativas iniciais da pesquisa em utilizar sua bateria bioeletroquímica em conjunto de painéis solares.
Tecnologia ainda distante
Apesar de ser uma tecnologia promissora, ainda há um longo caminho a ser percorrido antes que essa bateria de bactérias possa mesmo ter uso no mercado atual. Para começar, esses componentes possuem menos da metade da eficiência das versões de ion-lítio – apenas 30 a 40% de eficiência de ciclo, contra mais de 80% nas melhores baterias disponíveis.
Obviamente, como estamos falando de um material orgânico, essas baterias também pedem um maior cuidado de seus donos. Do contrário, as bactérias vão simplesmente morrer e fazer com que a bateria em si pare de funcionar.
Uma vez que colônias de bactérias se renovam sozinhas, baterias bioeletroquímicas têm potencial para durar um número de ciclos muito maior do que o das baterias convencionais
Como se não fosse suficiente, os pesquisadores conseguiram fazer com que sua tecnologia sobrevivesse a apenas 15 ciclos de carga – um número ridiculamente pequeno, em comparação ao que temos hoje. Isso, contudo, deve mudar com o tempo: uma vez que as colônias de bactérias se renovam sozinhas, elas têm potencial para durar um número de ciclos absurdamente maior.
Da mesma forma, a expectativa é que essas baterias bioeletroquímicas eventualmente sejam tão eficientes quanto as baterias convencionais de hoje, mas que podem ser fabricadas com custos menores e, acima de tudo, que peçam produtos químicos menos voláteis. Resta esperar para ver se, dentro de alguns anos, essa tecnologia vai ser capaz de sair do papel.

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Pela primeira vez, cientistas 'editam' DNA de embrião humano Pesquisadores chineses tentaram modificar gene que levaria a doença. Publicação dos resultados levantou discussões éticas.


Em um experimento sem precedentes, cientistas chineses relataram ter modificado o genoma de um embrião humano. Os resultados da experiência, publicados no dia 18 de abril na revista "Protein & Cell", levaram os cientistas a iniciarem um debate ético e motivaram a publicação de um artigo sobre o tema na prestigiosa revista "Nature" nesta quarta-feira (22).

Com a pesquisa, os cientistas da Universidade Sun Yat-sen, na cidade de Guangzhou, na China, tentaram modificar o gene relacionado à talassemia beta, doença que leva à anemia devido à malformação das hemácias (glóbulos vermelhos). Para isso, usaram uma técnica de edição de DNA chamada CRISPR/Cas9.
Este foi o primeiro registro do uso dessa técnica em embriões humanos. Os autores do estudo dizem que os resultados mostraram que ainda não é possível utilizar o método para fins médicos porque a técnica ainda está "muito imatura".
Conflito ético
A comunidade científica levantou a questão de que a possibilidade de manipular genes antes de o bebê nascer para evitar doenças genéticas pode levar a um uso antiético da técnica. Para especialistas, não é possível saber quais consequências essas modificações terão quando forem transmitidas para as gerações futuras.
Atualmente, o que a medicina já permite é seleção genética de embriões. Essa técnica prevê uma análise dos cromossomos dos embriões para verificar se possuem alguma alteração. Anomalias cromossômicas podem determinar síndromes como a de Down ou a de Turner, por exemplo. Com base nos resultados dessa análise, é possível selecionar aqueles embriões livres desse tipo de falha para implantá-los na fertilização in vitro.

Os cientistas chineses amenizaram os conflitos éticos ao assegurarem que os embriões utilizados no experimento não seriam viáveis para o implante, ou seja, não poderiam resultar em uma gestação e no nascimento de um bebê. Eles foram obtidos em clínicas de fertilização locais.
De qualquer forma, os resultados mostram que a técnica está longe de ter uma aplicação bem-sucedida. Os autores do estudo relataram que a técnica só funcionou em uma pequena parcela dos embriões que receberam o procedimento. "Se quisermos fazer em embriões normais, teríamos que ter quase 100. É por isso que paramos. Achamos que ainda está muito imaturo", afirmou o cientista Junjiu Huang, um dos autores, à revista "Nature".
Além disso, outras mutações não previstas também foram identificadas, o que sugere que a "edição" age em outras partes do gene.
Em resposta à publicação da pesquisa, a Sociedade Internacional para Pesquisas de Células-tronco pediu a suspensão das tentivas de modificações do genoma de embriões humanos até que se concluam análises científicas mais conclusivas sobre os riscos potenciais e que se realizem debates com a sociedade para discutir a questão ética.
Seleção genética já é feita
A estratégia pode ser usada por casais que já têm um filho com uma síndrome genética e buscam diminuir os riscos de que o próximo filho tenha o mesmo problema. Também pode ser usada para que o bebê tenha compatibilidade com um irmão mais velho que tenha alguma doença que necessite de transplante de medula óssea, por exemplo.
Disponível em < http://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2015/04/pela-primeira-vez-cientistas-editam-dna-de-embriao-humano.html>